Bolívia com pés de inca: trilha leva a cenários desconhecidos por turistas

A gente acha que vai fazer uma viagem, mas logo é ela que nos faz (ou nos desfaz). Sobretudo se o destino for a Bolívia.

Essas foram as palavras que ouvimos quando chegamos à Bolívia. Eu achei que havia entendido a mensagem, mas só fui processá-la alguns quilômetros mais adiante.

De Mojinete, um povoado rural esquecido, na época com 80 habitantes, partiríamos para uma longa e incerta caminhada de 120 km, serpenteando altas montanhas altiplânicas, até Guadalupe, na Bolívia.

Bonete Palca (foto: Eduardo Vessoni)

Trilha na Bolívia

Alguns dos destinos da travessia até Guadalupe, a mais de 4.500 metros de altitude, sequer figuram nos mapas turísticos.

Tudo começou em Mojinete, no sul da Bolívia, uma viagem de seis horas para percorrer 90 km, a partir de Tupiza.

Ao volante, um dos nossos anfitriões dizia que éramos os primeiros estrangeiros a pisarem aquele terreno acidentado recortado por armadilhas naturais (depois do que passamos, me arrependi de não ter pedido um comprovante do título inédito).

A caminhada começou ingênua e contemplativa, entre povoados perdidos a mais de 3 mil metros de altitude, mas o que viria mais tarde transformou-se em um pesadelo cheio de simbologias que ainda tento decodificar.

Caminho entre Tupiza e Mojinete (foto: Eduardo Vessoni)

No primeiro dia, bordeamos abismos, pisamos sobre chão escorregadio com rochas pontiagudas e nos agarramos em árvores para seguir caminho.

Fome, sede e medo ocupavam aqueles corpos cansados que cruzavam o umbigo da Bolívia, no rincão mais profundo daquele país de geografia agressiva.

Chegamos tensos na cidade seguinte, La Ciénaga, depois de 10 horas de travessia pelo altiplano. Desistir naquele ponto significaria caminhar de volta outras 10 horas e correr os mesmos riscos.

A noite veio cedo e apagou o nosso medo até a manhã seguinte, quando saímos cedo à Bonete Palca, o próximo destino.

La Ciénaga (foto: Eduardo Vessoni)

Severino, o velho inca experiente, era o nosso guia e, já na saída, tentou acalmar-me. Folhas de coca na mão, pisadas firmes sobre o chão traiçoeiro e um olhar atento que costumava prever os perigos seguintes.

Naquele dia, começamos a sentir o risco da viagem.

Os raros e minúsculos povoados não contavam com água potável nem banheiros, o sol a mais de 4 mil metros de altitude era intolerante, e nosso fiel guia inca, ao se dar conta de aquela travessia já não era para nós, começou a fazer um caminho alternativo (e mais seguro) para que seguíssemos viagem.

Caminhamos por quebradas, cruzamos o rio Guadalupe e visitamos casas de seres minúsculos que moravam no interior de rochas e que haviam desaparecido com a chegada da luz do sol.

O desafio daquele dia fora cumprido, sete horas depois de iniciado.

foto: Eduardo Vessoni

Vomitei umas frases desconexas para os poucos habitantes que nos receberam, em Bonete Palca, e deitei, tremendo, sobre um colchão empoeirado reservado para os visitantes.

As primeiras sensações de febre e delírio começaram a dar as caras, mas consegui registrar as últimas luzes naquele povoado sobre plataformas aéreas presas entre montanhas.

A terceira etapa da caminhada foi o momento mais (in)tenso de toda a travessia.

Mojinete (foto: Eduardo Vessoni)

Nosso fiel guia Severino jã não era tão fiel. Decidiu voltar para Mojinete e passar o bastão para outro experiente das montanhas, um jovem que mal falava espanhol e insistia em um incompreensível diálogo em quéchua.

Saímos cedo de Bonete Palca, sem água, exceto uma garrafa com um refrigerante de… mamão.

Antes de chegar em Guadalupe, vimos cenários impressionantes e fui incapaz de registrá-los.

O jornalista teve que dar espaço para a criança que precisava chorar.

E, no primeiro abismo sobre pedras que cruzou, as pernas tremeram de novo e ela não conseguiu seguir adiante.

Chorou um choro forte e prolongado. Pela primeira vez, o André não insistiu. Ficou de pé, ao meu lado, e esperou a minha vez de seguir.

Bonete Palca (foto: Eduardo Vessoni)

SAIBA MAS: “[crônica]: Na Bolívia, as fotografias só acontecem uma vez”

O medo e a febre alucinante, já a 5 mil metros sobre o nível do mar, impediram o registro de imagens daquele último dia, mas a memória registrou cabras escalando paredões verticais, cemitérios incas escondidos, a tríplice fronteira entre a Bolívia, o Chile e a Argentina, e concluir uma viagem de 120 km, a pé, pelo interior do país.

O velho Severino tinha razão: “Tranquilo, pode vir que ‘no pasa nada'”.

* Este conteúdo faz parte do projeto América do Sol, outras imagens da América do Sul, um registro clicado e escrito de um mochilão, entre a Patagônia e a Amazônia brasileira, em busca do destinos sul-americanos menos conhecidos do público brasileiro. Por quase nove meses, André Lima e o jornalista Eduardo Vessoni estiveram em 84 cidades de 9 países do continente.

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