“São Paulo! Comoção de minha vida”: 80 anos de morte de Mário de Andrade

“Segure a xícara, que eu não estou me sentindo bem”, pediu Mário de Andrade, antes de tombar para frente, vítima de infarto.

Neste 25 de fevereiro é lembrado o aniversário do poeta modernista que surpreendeu o Brasil ao morrer, precocemente, aos 51 anos. E eu, até hoje, nunca ouvi falar de uma pessoa tão viva, 80 anos da própria morte, como ele.

Mesmo morrendo, Mário ficou.

Mário de Andrade

Oito décadas depois, parece que o Brasil não aprendeu nada e as ideias de Mário continuam soando como novidade: a luta pela preservação do (largado) patrimônio histórico, o olhar para dentro do próprio país e a valorização (“sem preconceitos de gramática lusitana”) da língua brasileira. A língua da rua, dos becos, dos igarapés e da roça.

Apesar de ter morrido tantas vezes, ao longo da vida, sobretudo quando se afastava de sua casa, na Barra Funda, na zona oeste de São Paulo, Mário deixou-se espalhado pela Pauliceia Desvairada.

“Os pés, deixou na rua Aurora do começo da vida inteira; a cabeça, na Lopes Chaves; e o sexo, no Largo do Paiçandu, onde Mário se viu nu. O coração, afundou no Pátio do Colégio, e os ouvidos, escondeu nos Correios e Telégrafos para seguir ouvindo histórias que não eram suas.”

trecho do livro ‘Os crepúsculos não cabem no mundo: as viagens de Mário de Andrade’ (editora Patuá)

O trecho acima é baseado no poema ‘A Meditação sobre o Tietê’, que aparece em sua última obra, ‘Lira Paulistana’, uma espécie de “testamento poético”, segundo tão bem definiu a poetisa mineira Henriqueta Lisboa.

Em um de seus depoimentos sobre o velório de Mário, o crítico literário Antonio Candido (1918-2017) lembrou quando o biógrafo Edgard Cavalheiro (1911-1958) questionou: “Para encontrar na literatura brasileira uma morte desta importância é preciso voltar até quando?”.

– “Até a morte de Machado de Assis”, respondeu Candido.

Porém, 80 anos depois, a data deve passar batida nos meios culturais, exceto por um cortejo noturno que acontece no Cemitério da Consolação, conduzido pelo Núcleo de Ação Educativa e Núcleo de Pesquisa nos túmulos de amigos, familiares e do próprio poeta.

Programado para este 25 de fevereiro, terça-feira, o evento tem ingressos esgotados.

Mário, em Belém (imagem: MASP/Divulgação)

As (anti)viagens do modernista

Esse antiviajante declarado garimpou o Brasil, (re)descobriu o país e o colocou diante do espelho para conhecer aquilo que já tínhamos, mas não sabíamos.

“Eu, ninguém precisou de me vir dizer que o Brasil era interessante”, avisou num final do mesmo ano de 1924 em que os modernistas descobriram o próprio país, nas Cidades Históricas de Minas Gerais.

Apesar das angústias de deixar seu mundo-casa, na rua Lopes Chaves 108, suas viagens eram não só uma busca constante por conhecimento, mas também de cura.

1_Mario de Andrade
Túmulo de Mário de Andrade (foto: Eduardo Vessoni)

Águas de LindoiaSantos e Araxá eram daqueles destinos que traziam seus dias de volta.

Araraquara, endereço da chácara do tio Pio Lourenço, era outro daqueles lugares curadores, onde não só finalizou seu obra mestra, mas também passou um tempo desarvorado, depois da morte de Renato, o irmão mais novo que, aos 14 anos, fora vítima de um acidente num jogo de futebol, em 1913.

– “Não trabalho, não penso, nada” – escreveu Mário com as mãos trêmulas e já convencido de que ser pianista seria sonho distante.

“Ai que preguiça!”.

Suas duas únicas viagens mais longas, daquelas cheias de saudades pauliceias que pesavam as bagagens, foram para destinos distantes do Brasil. Nem Paris nem os States, apesar da insistência dos convites teimosos, veriam o modernista por ali.

A primeira delas foi entre maio e agosto de 1927, quando Mário embarcou para a Amazônia, numa viagem cheia de sonhos, floresta e protocolos oficiais, ao lado da mecenas Olívia Guedes Penteado, sua sobrinha Margarida e a filha de Tarsila do Amaral, a Dulce.

Mário de Andrade, Amazônia
Mário de Andrade na Amazônia (Reprodução)

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A viagem de trem até o Rio de Janeiro, precedida de um sem-fim de arrependimentos, seguiu marítima pelo Nordeste, foz do Amazonas, Belém, Santarém, Parintins, Itacoatiara, Manaus e Manacapuru.

No roteiro do viajante, num prefácio póstumo de um livro que não chegou a publicar, o “turista aprendiz” resumiu a viagem assim: “Viagens pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia e por Marajó até dizer chega”.

O que se veria dali para frente era vida inédita (para Mário e para o Brasil).

Tudo era tamanho que não dava para ver e, mesmo vendo, nada do que se via cabia nos olhos. Numa época em que as ruas eram líquidas, a viagem foi em meio a águas e mais águas que, mais à frente, se encontrava com outro tanto de água.

Foi nesse mesmo roteiro que Mário fez sua única viagem em outro país: Iquitos, na Amazônia peruana, e um bocadinho de Bolívia.

– “Que bela. Mas voltemos ao Brasil”, finalizou.

Mário de Andrade

No ano seguinte, Mário trocou as enchentes pela seca e fez sua segunda e última longa viagem, entre novembro de 1928 e fevereiro de 1929, quando embarcou no vapor Manaus, na Baía de Guanabara, em direção ao Nordeste.

Foram três meses em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, em busca de chegança, reisado, bumba-meu-boi e pastoril.

– “Grandes projetos pra lá, estudo sério de folclore musical”, prometeu para Augusto Meyer, um mês antes de embarcar.

Minas Gerais era outro daqueles lugares que coincidiam com Mário.

Mario_de_andrade_1928
Domínio Público

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A primeira vez foi em 1919, aos 26 anos, numa visita apressada até Mariana para conhecer Alphonsus de Guimaraens, pseudônimo do poeta Afonso Henrique da Costa Guimarães.

Cinco anos mais tarde, Mário voltou a Minas acompanhado por uma trupe formada por nomes como Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Dona Olívia e o franco-suíço Blaise Cendrars, que precisou vir lá do outro lado do Atlântico para mostrar o que o Brasil tinha.

Não é à toa que Oswald chamaria aquilo tudo de a “viagem de descoberta do Brasil”, um roteiro que passaria a Semana Santa de 1924 em São João del Rei e seguiria por outras mineirices como São José d’El Rei (mais tarde, mudado para um “odontológico Tiradentes), Ouro Preto, Mariana e Congonhas.

Aquilo tudo coube direitinho no álbum de imagens do Mário.

Dez dias antes de sumir para sempre, tomado por um pavor do tamanho de um Mário, o poeta ainda teve tempo de avisar que tinha um medo vago de que alguma coisa fosse morrer.

Mário, que sempre respondia, não respondeu mais.

capa
arte: Alessandro Romio

SAIBA MAIS

Essas e outras viagens do modernista Mário de Andrade estão retratadas na obra “Os crepúsculos não cabem no mundo: as viagens de Mário de Andrade” (editora Patuá), livro de estreia do jornalista e editor do Viagem em Pauta, Eduardo Vessoni.

Lançado em 2023, esse extenso trabalho de pesquisa tem prefácio escritor por Ignácio de Loyola Brandão e capa do ilustrador Alessandro Romio.

“Há anos, muitos anos, que eu não deparava com um estudo tão diverso e cativante como esse de Eduardo Vessoni. Principalmente porque é um texto delicioso de ler, sem ter uma linguagem cifrada, com os jargões acadêmicos, vocabulário inacessível, destinado a estreito círculo”, descreve Ignácio.

Entre as coincidências com Mário, o cronista araraquarense lembra as visitas àquela casa no interior de São Paulo.

“Podia eu ter ideia de que aquele pedaço de terra em minha rua faria parte da literatura brasileira? Com espanto, descobri um dia que ‘Macunaíma’ tinha sido escrito naquela chácara Sapucaia”, conta Ignácio no prefácio.

O livro traz também curiosidades da vida pessoal daquele paulistano tão apegado à sua casa na Barra Funda, bairro da zona oeste de São Paulo. “Não fui feito pra viajar, bolas”, costumava dizer Mário, mais resolvido a escrever do que a viajar.

foto: Consolare/Divulgação

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