Este é o último capítulo da série América do Sol, outras imagens da América do Sul, um registro clicado e escrito do mochilão, entre a Patagônia e a Amazônia brasileira, em busca do destinos sul-americanos menos conhecidas do público brasileiro.
Por quase nove meses, André Lima e o jornalista Eduardo Vessoni estiveram em 84 cidades de 9 países do continente, em uma travessia terrestre (e por onde mais fosse possível) de mais de 40 mil km de extensão.

Venezuela
Foi em um delicado e caótico momento histórico da Venezuela que desembarcamos para tentar escrevermos o último capítulo da nossa travessia iniciada, sete meses antes.
Mas o país agonizava em um sistema político que transformava e impunha sua visão sobre si mesmo e sobre o mundo.
As estradas estavam, agressivamente, policiadas, mas faltava segurança em todo o território venezuelano. A moeda levava forte no nome, e era um peso que circulava paralelo à economia idealizada.
Sobravam imagens entre montes sagrados, imensas quedas d´água e praias do Caribe, mas nos faltaram possibilidades.
Na memória fotográfica de quem havia sobrevivido ileso a sete e intensos meses sobre terreno sul-americano, sobram apenas algumas escassas imagens que pouco lembravam o trabalho que havíamos planejado para aquele país.
O mês em solo venezuelano, imaginado mais de um ano antes, converteu-se em quatro longos e tensos dias, tempo necessário para cruzarmos o país de uma extremidade a outra e decidirmos que era a hora de mudar o rumo.
A pé, cruzamos o limite com o Brasil.
E mesmo faltando mais de um mês para concluir o roteiro, jogamos as malas no chão, choramos abraçados e nos sentimos como se acabássemos de chegar nas nossas próprias casas.
Nossa viagem acabava de ganhar novos tons. O amazônico norte brasileiro era nosso próximo destino.

Quando encontramos nossos primeiros obstáculos da viagem, ainda em terras patagônicas, comprometemo-nos que nada e ninguém nos devolveria de volta antes do programado, ainda que os questionamentos e a saudade das terras conhecidas começassem a fazer as primeiras exigências.
Nem os altos custos, as ameaças físicas e os subornos que sofremos no último país do nosso roteiro foram argumentos suficientes que sustentassem um retorno prematuro.
Acabamos de chegar em solo nacional, mas ainda longe de casa.
Trocamos um mundo falado em espanhol por um Brasil desconhecido de cultura única. As imagens da América do Sul foram substituídas por aquelas que só um Brasil distante poderia dar.

Entre igapós e igarapés, cruzamos a mais famosa das florestas do planeta, deitamos sobre redes amarradas entre árvores centenares do Amazonas, navegamos águas doces de extensão incalculável, estivemos em casas que nos receberam como velhos parentes que recém chegavam de uma longa viagem, vimos o moderno ocultando a tradição, enquanto essa, insistente, se repetia em comunidades indígenas.
Vimos, ouvimos e provamos.
O gosto amargo dos últimos dias acabava de ganhar o sabor da conquista de ter cruzado o continente.
E mesmo depois de haver percorrido mais de 40 mil km, entre 84 cidades, foi bem aqui, em terras brasileiras, onde nos encontramos e começamos a medir o que havia significado aquela travessia entre a Patagônia e a Amazônia, os extremos da América do Sul.
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