[CRÔNICA]: Eles não moram mais aqui

foto: Creative Commons Zero – CC0
Toda tarde, um sopro de ar entra pela janela comprida da sala. Junto com aquela corrente insistente vem som, vem cheiro e vem lembrança.

Já não tem mais barulho de criança no pátio, lá embaixo, nem cochicho de adolescentes na escada da entrada;

O vento segue dando vida ao balanço inerte do parquinho na lateral do prédio, mas os corredores são campainhas mudas, a portas fechadas que só se abrem para receber as caixas de papel higiênico e farinha de trigo que chegam via delivery;

O cheiro da sopa bem feita no andar de cima, se desfez; e o interfone não toca como na época em que todo mundo tinha história para contar;

A turma já não manda mensagens de positividade, mas se auto promove em lives. Se sentem coexistentes no mundo, mas são incapazes de passar a mão no telefone para fazer uma ligação amiga;

Quem andava sumido, deu de aparecer em mensagens que, antes mesmo de um ‘olá, como vai?’, começam com notícias que não interessa a ninguém.

A avenida em frente à mesma janela por onde passa aquele ar vespertino via engarrafamentos históricos, mas agora só ouve automóveis ruidosos que aceleram além do permitido em pistas semivazias, sob direção daqueles que não acreditam em vacinas e juram que a terra é plana;

Ficamos presos na tela vertical do celular, divididos em quatro telas iguais de uma vídeo chamada.

foto: Anastasia Massone/Flickr-Creative Commons

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Aliás, alguém mais teve notícias daquele desvio de merenda, do ciclone em Moçambique, da vizinha espancada pelo marido ou da bicha expulsa de casa? Nessa correria toda para esgotar o estoque de álcool gel, acabou nem dando tempo de fazer o funeral da vida que vinha agonizando, em meses anteriores.

Nem a Marielle que costumava estar aqui, mesmo depois de morta, já não está presente.

Vou, mas sempre volto (pelo menos, era assim antes de tudo isso), como a língua de ar que nunca falta na sala, nos finais de tarde.

E é por mais golpes de vento como esses que, quando perguntam pelo meu lugar preferido no mundo, eu sempre respondo:

– Aqui, onde o vento de ar ainda sopra vivo.

Quem sempre esteve, já não está mais. Eles já não moram mais aqui.

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