[CRÔNICA] Cheiro de macumba

T

em gente que lembra com o nariz. E eu sou um deles.

Nunca mais voltei para Hong Kong, mas até hoje aquele pãozinho da padaria subterrânea da estação Central cheira na memória.

Diariamente, no final da tarde, eu deixava o vagão, me espremia em corredores estreitos cheios de gente e pedia um de chocolate. Nem me lembro se era bom mesmo, mas cheirava bem (na vitrine, na bolsinha de papel pardo e no metrô inteiro).

Na vida, tem cheiro de tudo.

De avião, de velho, de dama da noite, de estrada em dia quente, de rua depois da chuva, de bolo, de manhã recém-começada, de outono e de vinho.

Tem o ruim e o bom (daí não é cheiro, é aroma).

Mala que vai é aroma, mala que volta é cheiro (de trilha, de roupa cansada e de quarto que não é seu). Tem cheiro de quem chega em casa e também de quem acabou de sair.

Em São Paulo, a gente nunca esquece o cheiro de rio, de shopping e de feira.

Lenha é o cheiro dos Pampas; a Bolívia e o Peru têm cheiro de folha de coca mascada; o México, de milho; Macau cheira a cinzeiro; Nova Iorque parece um falafel, recém-frito; Berlim, salsicha grelhada e ketchup com curry. Já o Nordeste brasileiro é puro xêro.

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Templo Man Mo, em Hong Kong (foto: Eduardo Vessoni)

São tantos cheiros de viagem que, dia desses, andei cheirando.

Quando eu tinha 13 anos, minha mãe teve um namorado, daqueles quarentões bonitos de roupa estampada, cabelinho jogado e pinta de surfista.

À noite, trancavam-se no quarto e andavam de risadas alargadas, do outro lado da porta. Pregaram até uma tevê na parede, contrariando as tradições da casa. Viam TV e riam.

Aquilo se repetiu por semanas e, certa noite, intrigado, bati à porta. As risadas cessaram e a chave rodou. Lenta, quase sem querer abrir. Abriu e, semi-aberta, a porta deixou o cheiro sair.

“Que cheiro de macumba é esse?”, perguntou o adolescente, com mãos repreendedoras apoiadas na cintura.

Nunca me responderam. E ainda riram.

Anos depois, já crescido, lembrei do mesmo cheiro de macumba, numa roda com hippies no Deserto do Atacama.

foto: Felipe Ernesto (Flickr-Creative Commons)

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