“O Hóspede Americano”, na HBO, é viagem histórica pela Amazônia

Patrono das comunicações no Brasil e espécie de Gandhi brasileiro, Cândido Rondon volta à cena em “O Hóspede Americano”, em cartaz, atualmente, na HBO e na plataforma de streaming HBO Max.

Dirigida por Bruno Barreto, a minissérie de quatro episódios conta a história da “Expedição Científica Rondon-Roosevelt” (1913-1914), viagem de Theodore Roosevelt (Aidans Quinn), encabeçada pelo militar Rondon (Chico Diaz) que buscava a foz do rio da Dúvida, curso d’água de extensão até então desconhecida.

HBO/Divulgaão

“O Coronel Rondon foi, durante um quarto de século, o mais insigne desbravador dos sertões brasileiros”, escreveria mais tarde o ex-presidente dos Estados Unidos em seu livro “Nas Selvas do Brasil”.

O “Hóspede Americano” é uma produção exclusiva HBO, coproduzida com a Teleimage, e tem criação de Bruno Barreto e roteiro de Matthew Chapman. Em sua terceira semana de exibição, a série ficará disponível na íntegra para assinantes da HBO Max, após o último capítulo.

Mas quem foi Cândido Mariano da Silva Rondon e por que essa figura merece ser lembrada até hoje?

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Cândido Rondon

Até a primeira metade do século passado, a Amazônia e o miolo do Brasil eram terras sem comunicação com o restante do país.

É nesse contexto que Rondon se tornaria uma espécie de novo descobridor do Brasil com suas complexas expedições para instalação de telégrafos em áreas remotas.

Ao longo de sua carreira, Rondon esteve em dezenas de expedições no Norte do Brasil e rodou mais de 40 mil km “a pé, em canoas e no dorso de mulas”. É considerado também um dos motores das ciências naturais no Brasil moderno e peça chave na documentação antropológica com registros em filme de índios da Amazônia.

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Cândido Rondon (foto: Domínio Público)

Mas uma das suas viagens mais conhecidas foi a “Expedição Científica Rondon-Roosevelt”, viagem de cinco meses, entre 1913 e 1914.

A empreitada, daquelas que a gente acha que só existe em cinema, a comitiva de brasileiros e estadunidenses testou seus limites (físicos e mentais), em meio a ataques de animais selvagens, encontro com indígenas, corredeiras mortais, doenças e uma floresta amazônica inteira que sempre cobra seu ingresso de acesso.

Isso tudo, sob o comando de duas figuras históricas de personalidades conflitantes.

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Cena da minissérie “O Hóspede Americano”, na HBO (foto: HBO/Divulgação)

“Com ele a conversa versava desde a caçada de onça e os perigos da exploração do “mato-grosso” – a grande selva – até a antropologia indígena, os perigos da civilização industrial, puramente materialista, e a moralidade positivista”, escreveu Roosevelt em seus diários de viagem.

Apesar do farto material zoológico colhido na Amazônia e enviado ao Museu de História Natural de Nova York, a viagem com o ex-presidente, que por (muito) pouco não ficou por ali mesmo, tomou um rumo geográfico que mapearia áreas pouco conhecidas no Mato Grosso e no Amazonas.

Terra perdida

O “Domador dos Sertões”, outro título dado a Rondon, não se contentaria apenas em estreitar laços com áreas esquecidas do país. Fundador do SPI (Serviço de Proteção aos Índios), mais tarde substituído pela FUNAI, esse mato-grossense de Santo Antônio de Leverger seria lembrado como um dos mais importantes defensores dos direitos indígenas.

O pacificador Rondon ficou conhecido pelos contatos não-violentos e respeitosos com indígenas brasileiros que nunca haviam visto um homem branco, trazendo-os para a civilização sem tirá-los de suas próprias terras (nem que para isso tivesse que se ausentar no dia do nascimento de todos os seus sete filhos).

Rondon (á esq. com a mão na cintura), próximo à fronteira entre Brasil e Bolívia (foto: Domínio Público)

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“Morrer se for preciso, matar nunca” foi o lema que Rondon defendeu ao longo de toda a sua carreira, cuja abordagem não-violenta seria inédita desde Gandhi, como definiu um membro da Cruz Vermelha, após a morte do militar, em 1958.

Suas atitudes se resumiam em aproximações desacompanhadas nas aldeias, pedidos de permissão para construção de postos telegráficos em terras indígenas, participação em rituais e, mais tarde, até inclusão de índios Parecis no trabalho de conservação dos telégrafos de Utiariti, no Mato Grosso.

foto: Eduardo Vessoni

Para o biógrafo Larry Rohter, autor de “Rondon: uma biografia” (editora Objetiva), a missão do militar “era construir, não destruir”.

Em certa ocasião, o militar chegou a liberar índios que trabalhavam sem remuneração para um juiz do Mato Grosso que desmatava em nome do cultivo. “O que estava errado, metia-se na frente e acabava com aquilo”, lembra Larry.

Mesmo nos encontros com índios hostis à presença branca, como os Nambikwára, o “soldado caboclo” punha em prática sua habilidade de se comunicar com grupos indígenas e inclui-los, de acordo com a cultura deles, em novos contextos da sociedade.

Assim como lembra seu biógrafo, Rondon chegou a ser indicado por ninguém que Albert Einstein para o Nobel da Paz, após a visita do cientista alemão ao Brasil, em 1925.

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