Fordlândia: os 5 erros da Ford na Amazônia

Henry Ford pode até ter domado máquinas e homens com seu bem sucedido sistema de produção industrial, mas na maior floresta tropical do mundo, o buraco da seringueira é bem mais embaixo.

Para produzir o próprio látex para suas fábricas nos Estados Unidos, esse empresário do Michigan, no nordeste dos Estados Unidos, investiu pesado na criação de uma cidade operária no Pará, em 1927.

Mas o que ele não esperava é que a Amazônia não respeita sirenes de fábrica nem relógios de ponto.

Altas temperaturas, doenças tropicais e solo inadequado foram as primeiras dificuldades encontradas pelos homens da frente de desmatamento enviados ao norte do Brasil pela empresa.

Fordlândia, no município de Aveiro, foi um dos maiores fracassos da história dessa montadora que virara ícone, naquele começo de século, com seu Modelo T, mais conhecido no Brasil como Ford Bigode.

De acordo com a Fundação Joaquim Nabuco, Henry Ford estava disposto a apostar todas as fichas na crescente indústria automobilística e “criou um ambicioso plano de expansão em solo brasileiro com o intuito de driblar o monopólio inglês da produção do látex”.

Modelo T exposto no Museu da Ford, em Detroit, nos Estados Unidos (foto: Eduardo Vessoni)

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No Brasil, o charleston tocou fora de tom, mas Ford era insistente (nem que para isso tivesse que começar já no prejuízo).

A mesma fundação lembra que a Ford Motor Company adquiriu um milhão de hectares por US$ 127 mil, mas na época o próprio governo brasileiro estava disposto a ceder a área sem custo.

“Em grande parte tratava-se de terras públicas, que Ford poderia ter obtido com pouco ou nenhum custo”, avisa Greg Grandin, professor de história e autor da biografia “Fordlândia: ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva” (editora Rocco)


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Os 5 erros da Ford na Amazônia

Contrabando de sementes
Meio século antes da chegada da Ford no Pará, o botânico Henry Wickham havia contrabandeado 70 mil sementes de seringueiras amazônicas, retiradas de uma área próxima à futura Fordlândia, em 1876.

Enviadas para Londres, seriam transformadas em mudas e então comercializadas na Ásia, abrindo espaço para a concorrência do látex do outro lado do mundo.

Quando a Ford chegou à Amazônia, a região já não era tão próspera como na época do Ciclo da Borracha que, entre o final do século 19 e início do 20, transformava cidades como Manaus e Belém numa espécie de Paris dos trópicos.

O contrabando encabeçado por Wickham é considerado um dos maiores casos de biopirataria do mundo amazônico.

Vista aérea de Fordlândia, em 1934 (foto: Wikimedia Commons)

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Não contratou especialistas
O excesso de confiança de Henry Ford na condução de homens e máquinas nos Estados Unidos levaria o empreendimento a cometer um dos seus maiores erros.

Após cinco anos de investimentos (financeiros e físicos), a empresa ainda não havia contratado nenhum especialista que pudesse orientar aqueles estrangeiros na plantação de seringueiras na Amazônia.

Assim como lembra o biógrafo Greg Grandin, um funcionário chegou a afirmar que a Ford Motor Company “estava usando técnicas de plantio (…) tão antiquadas quanto o Modelo T”, lançado quase duas décadas antes da inauguração de Fordlândia.

Mural do artista Diego Rivera em homenagem à indústria automobilística, em exposição no Detroit Institute of Arts (foto: Eduardo Vessoni)

Apenas em 1933, a cidade fordista teria ajuda científica do botânico James Weir. No ano seguinte, o mesmo Weir sugeriria a transferência da empresa para mais de 100 km dali, em Belterra.

“Depois de gastar seis anos e US$ 7 milhões (…) a família Ford tinha decidido ouvir os conselhos de um especialista, mesmo que isso signifcasse começar de novo”, explica Grandin.

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Árvores não são carros
“Ford tratava máquinas como seres vivos; na Amazônia, esperava que seus homens tratassem seres vivos – as seringueiras – como máquinas”.

Essa afirmação do também professor de história Greg Grandin é uma das melhores descrições para ilustrar o erro em Fordlândia.

Um dos mais graves foi o pouco espaçamento deixado entre as árvores, desconsiderando que a matemática da linha de produção não serve para ambientes complexos e específicos como a floresta amazônica.

Próximas uma das outras, as seringueiras estavam fadadas a ataques de pragas ou insetos. Em Belterra, por exemplo, cerca de 250 mil lagartas foram retiradas, em cinco horas de trabalho inútil.

Mesmo atacada por uma epidemia de pragas que mataria 70% das árvores, em 1940, Belterra conseguira ainda produzir 750 toneladas de látex, bem abaixo das 20 mil toneladas projetadas por Ford.

Fordlândia, em 1928 (foto: The Henry Ford/Flickr, Creative Commons)

Choque cultural
Ford estabeleceu uma rotina que desconsiderava por completo a cultura local, como o uso de soja, hambúrguer e arroz integral nas refeições.

O lazer proposto pela Ford incluía ainda atividades como recitais de poesia e sessões de documentários sobre a África e o parque Yellowstone, o parque nacional mais antigo do mundo (mas sem nenhum interesse para aquela gente na beira do Rio Tapajós).

Sem falar na Lei Seca, importada de Detroit e instituída pela empresa na Amazônia.

Não eram raros protestos organizados pelos brasileiros, como a famosa rebelião de 1930 que começou no refeitório e levou Fordlândia à destruição, literalmente.

Hospital em Fordlândia (foto: Wikimedia Commons)

Insistência
Em quase duas décadas de tentativas e de um investimento na casa dos milhões de dólares, a Ford era responsável pelo fornecimento de menos de 1% da produção mundial de látex, “uma gota no balde”, nas palavras de Grandin.

Mas já era tarde. O fim da Segunda Guerra Mundial trazia não só esperanças econômicas, mas também a borracha sintética.

Aquele fracasso econômico só não foi maior se levados em conta os benefícios sociais deixados na época, como estrutura urbana e assistências sociais e médicas.

Em 1945, com Henry Ford e seu filho Edsel já mortos, a empresa venderia aquelas terras ao governo brasileiro por um valor, infinitamente, mais baixo do que valiam.

Nas contas apresentadas pelo biógrafo, Fordlândia e Belterra estavam avaliadas em oito milhões de dólares, vendidas por pouco mais de 240 mil dólares.

Fordlândia seria abandonada para sempre.

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“Fordlândia: ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na selva”
autor: Greg Grandin
editora Rocco

5 Comentários

  1. Só o ouro e diamantes extraídos ilegalmente pagou as despesas da Ford,sem falar em outros minérios,olha a foto e veja o tampão do túnel onde os carros erão puxados por trilhos subterrâneos. Por isso a venda barata ao governo.

  2. Sem comentario, pois não deixe de ser uma história interessante. Os comentários lidos por si só já revela o caráter importante do empreendimento.

  3. Todo empreendimento internacional na Amazônia é suspeito. Inclui-se com este, o Projeto Jari, não menos capcioso. Outros são algumas ONGS que existem lá, e que deveriam ser deslocadas para os sertões brasileiro, onde tem muita gente precisando realmente de ajuda.

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