O paraíso e o inferno estavam lá, a uma considerável distância do Brasil, e todo mundo sabia.
Vida marinha aos montes e pesca farta, em uma área sem água doce, natureza rebelde que mal se deixa criar árvores e obstáculos naturais escondidos pelo mar raivoso que, sem dó, levavam embarcações para o fundo do mar.
A 269 km de Natal, capital do Rio Grande do Norte, é o Brasil lindo que, por sorte, você não vai conhecer.

Atol das Rocas: o Brasil proibido
A Reserva Biológica do Atol das Rocas, criada em 1979, e Patrimônio Natural Mundial pela Unesco, desde 2001, é a única formação do gênero, em todo o Atlântico Sul, e tem acesso apenas para fins científicos, devido ao seu alto grau de fragilidade.
Desde 1995, o Atol das Rocas é administrado por Maurizélia de Brito Silva, conhecida também como a “xerifa do Atol”, por conta da sua (necessária) linha dura para defender o local.
Não fosse isso, o atol continuaria a receber barcos de pescadores, armados com rede, linha e até arpão. Ou pior, ser mais um destino do Brasil, lotado de turistas fazendo snorkel em piscinas naturais e caminhando com suas coloridas sandálias emborrachadas para fazer selfies sobre plataformas de recifes.
Em 2011, junto com Leonardo Sakamoto, Jean Wyllys e Ronaldo Fraga, r Maurizélia ganhou o prêmio Transformadores, concedido pela revista Trip a pessoas que inspiram mudanças no Brasil e no mundo.

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Outras curiosidades do Atol
Após tantos naufrágios na região, por conta da ausência de rochedos que servissem de alerta para os navegantes, o atol receberia o maior dos faróis de todo o Brasil, em 1879.
Porém o terreno instável impossibilitou sua instalação e aquela pesada estrutura seria enviada para Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco.
O atol só veria luz artificial com a instalação de um farolete, em 1883. A partir daquele momento, os faroleiros passariam a ser os únicos moradores fixos do local.
No entanto, entre 1937 e 1939, tentou-se manter, sem sucesso, uma empresa pesqueira em Rocas, devido à dificuldade de adaptação dos pescadores naquela área isolada.
Diz a lenda que, antes de ser transformado em área de pesquisa e preservação, o atol também foi cogitado como área de abastecimento de hidroaviões e até depósito de lixo nuclear.

Mas o que é um atol?
Sua formação é um lento processo, de milhares de anos, de rebaixamento de uma ilha oceânica, dando origem a uma área interior inundada, rodeada por recifes em constante crescimento, em busca de luz da superfície.
O Atol das Rocas, assim como o arquipélago de Fernando de Noronha, são as únicas elevações que podem ser vistas sobre o nível da água, ao longo de uma extensa cordilheira submarina que corta todo o Atlântico.
No mundo, outros exemplos de atóis estão nas Maldivas, Seichelles, Micronésia, ilhas Salomão, Polinésia Francesa e Nova Zelândia.

3º51´S 33º48´W são não só as coordenadas geográficas do Atol das Rocas, mas o subtítulo do livro que registra o extenso trabalho da bióloga Alice Grossman e das fotógrafas especializadas em imagens submarinas, Zaira Matheus e Marta Granville.
Nessa espécie de biografia do atol, a obra reúne dez anos de pesquisa no local, dividida em capítulos que abordam o local desde seus primeiros registros cartográficos, em 1529, até a atualidade (o livro foi lançado em 2012).
“Atol das Rocas 3º51´S 33º48´W” (BEĨ Editora) é como um memorial vivo que detalha a ilha em retrancas sobre aves, crustáceos, marés e outros tantos assuntos possíveis no atol.
Assim como lembram as autoras desse belo livro de fotografias, a palavra atol foi usada pela primeira vez pelo naturalista Charles Darwin, em um trabalho científico, emprestando o termo da língua nativa das Maldivas (atolu).
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