Diário de viagem de Albert Camus é o Brasil que a gente não esqueceu

Albert Camus tem livros com novo projeto gráfico, no aniversário de 60 anos de sua morte

O que seriam dos livros sem suas orelhas? É ali que se desdobra, pela primeira vez, o que vem pela frente; é a alma impressa em uma dobra esquecida da capa.

E é isso que o jornalista e escritor Otto Lara Resende fez na orelha de ‘Diário de Viagem’ de Albert Camus. Em uma única e primeira frase, o brasileiro vai direto ao ponto: “O que interessa não é propriamente o que o viajante viu (…) e sim o próprio viajante, que em nenhum momento consegue esquecer-se de si mesmo”.

Não se trata de um diário em si, mas sobre si.

Albert Camus (foto: DietrichLiao/Flickr-Creative Commons)

Com textos extraídos dos cadernos de anotações de Camus, o livro são relatos das experiências que o argelino teve nas Américas, em viagens para os Estados Unidos, em 1946, e América do Sul, três anos mais tarde. Em depressão e com uma gripe que o acompanhou todo o tempo, Camus passou pelo Brasil entre julho e agosto de 1949.

Esteve com Manuel Bandeira (“pequeno homem extremamente fino”); ouviu Dorival Caymmi (“o negro que escreve todos os sambas que o país canta”); e jantou com Oswald de Andrade, “personagem notável” de quem ouviu sobre a teoria da antropofagia.

Mesmo assim, se entediou durante boa parte da viagem. E é, exatamente, isso que nos prende à leitura de seu ‘Diário de Viagem’, onde suas impressões do Brasil são registradas em anotações que também expõem, sem esconder detalhes ou economizar nos adjetivos, a monotonia de uma viagem a trabalho.

Publicado na França em 1978, esse é um dos onze livros da coleção que a Editora Record lançou com novo projeto gráfico para as obras de Albert Camus, que inclui “O estrangeiro”, “A peste” e “A queda”, entre outros.

imagem: Editora Record/Divulgação

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Ontem e hoje

As frases curtas nos diários de Camus e sua visão, extremadamente, crítica de tudo o que passou diante de seus olhos são o retrato de um Brasil que pouco mudou.

O trânsito brasileiro lhe soou confuso e anárquico, e o contraste das favelas a poucos metros de “palácios luxuosos” o impressionou. Camus se espantou diante daquele espírito urbano que ainda não conseguiu deixar de ser floresta.

A melhor lição que um viajante brasileiro pode tirar desses diários é o viajar curioso com olhos que pedem novidades, como os do escritor argelino.

Em um dos jantares enfadonhos durante sua visita ao Rio de Janeiro, um companheiro de mesa pede camarão frito para Camus que, “amavelmente animado”, recusa. “Não devo procurar no Brasil o que tenho na França”, responderia o escritor.

Hoje, seria como aquele brasileiro que almoça em uma churrascaria de Orlando. Para Camus, era o equivalente a ouvir La vie en Rose nos trópicos.

O argelino queria mesmo macumba. E, de fato, foi a um terreiro em Duque de Caxias, perto do Rio, cujo ritual é longamente detalhado por ele em seu diário.

Albert Camus (Wikimedia Commons)

Desde que embarcara no porto de Marselha, para uma viagem de quase 20 dias cruzando o Atlântico, o suicídio não lhe deixava a mente. O Prêmio Nobel de Literatura viveu em depressão e por isso os deslocamentos pareciam ser seu melhor companheiro (na vida e nas obras).

É dele também ‘O estrangeiro’, ‘O mito de Sísifo’ e ‘Camus, o viajante’.

Até mesmo o mar, que lhe apaziguava tudo, era um “convite à morte”. Se sentia morto, mas suas obras estavam ali, vivas.

Suas anotações eram como ensaios de seus futuros livros, e diversos trechos daqueles escritos curtos voltariam a aparecer em ‘O Exílio e o Reino’, cuja edição brasileira da editora Record traz o capítulo Notas com essas referências.

Três fragmentos desse diário, por exemplo, apareceriam mais tarde no capítulo ‘A pedra que cresce’. É como se o leitor pudesse ver a obra de Camus sendo feita ali mesmo, diante dos olhos, antes de ser livro.

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O Brasil que Camus viu

Depois de quase 20 dias, onde o mar era o único refúgio para aqueles “dias sem relevo”, Camus chega ao Rio de Janeiro, cujo Cristo iluminado lhe pareceu lamentável.

Encantou-se com as igrejas do Recife; achou a capital pernambucana a “Florença dos Trópicos”, mas a comida da Bahia capaz de fazer paralítico andar, de tão apimentada.

Visitou também a praia de Itapuã, encantou-se com Petrópolis e Teresópolis, e o frevo lhe soou “a contorção mais desenfreada” que já vira.

Iguape, em São Paulo, o inspirou, cuja lenda da pedra que cresce deu origem ao capítulo de mesmo nome em ‘O Exílio e o Reino’; mas Porto Alegre o desagradou, “a luz é muito bela. A cidade, feia”.

São Paulo, onde jantou com Oswald de Andrade, pareceu-lhe estranha e chegou a compará-la com Orã, a cidade do litoral da Argélia que se viu sitiada pela epidemia que dá nome a um dos seus livros mais conhecidos.


Aliás, em tempos de coronavírus, “A peste”, de 1947, está entre os cinco livros mais vendidos na categoria ficção literária da Amazon no Brasil, segundo a editora Record.

Embora trate de problemas do coletivo em suas obras, Camus sempre se mostrou avesso à coletividade em suas anotações. Seu refúgio não eram as pessoas, mas o mar, onde sua tristeza estava bem acompanhada.

Para Camus, aquelas viagens eram uma rotina monótona, dividida entre o escrever, o ler, o tédio e a sonolência. Para o leitor, é uma breve viagem por uma mente absurda em plena criação.

SAIBA MAIS
‘Diário de Viagem’
editora Record
www.record.com.br

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