Jackson do Pandeiro, 101 anos: a geografia musical do ‘Rei do Ritmo’

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as quase três décadas de carreira, o paraibano Jackson do Pandeiro fez rima sem perder o fio, castigou no mastigado e tocou para quem tinha a junta mole.

Só não deu conta de trabalhar no sábado de Carnaval.

Enquanto assava pães em uma padaria de Campina Grande, aos 17 anos, um bloco entoava ‘A Jardineira’ no Clube Ipiranga, no Brejo paraibano. Mas antes que a Camélia caísse do galho para dar dois suspiros e morrer, largou tudo para entrar naquela roda de samba.

E nunca mais saiu.

De feiras de rua a quilombos, de shows no Cassino Eldorado aos terreiros de candomblé, o ‘homem-orquestra’ ia afinando suas ‘mãos de polvo’, só para citar algumas das definições atribuídas ao Rei do Ritmo.

Tudo era matéria-prima para um repertório que foi da Serra Talhada a São Paulo, de João Alfredo a Inglaterra, do acarajé da Bahia à liamba de Luanda.

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Forró em cidade grande

O paraibano não só contou histórias de forrós animados em Campina Grande, Limoeiro e Caruaru, como também homenageou metrópoles.

No baião ‘Nortista Quatrocentão’, um repente de tom imponente agradece São Paulo por receber um nordestino “que veio em pau de arara” para ali ganhar o pão, na mesma época em que a cidade celebrava seus 400 (e poucos) anos.

Jackson reverencia também o Rio de Janeiro que, no ano de lançamento da canção ‘Parabéns, Guanabara’, completava quatro séculos. O paraibano parabeniza a cidade com um humilde “Rio, querida Guanabara / Eu sou gente também / Aceite os parabéns desse pau de arara”.

A geografia musical aparece também no emocionante ‘Rojão de Brasília’, um baião de viola com ritmo desacelerado que nos transporta para as modas pantaneiras do Centro-Oeste do país. É como se o repentista e o vaqueiro se encontrassem na mesma canção, em uma estrutura que foge do padrão das outras músicas de Jackson.

Jackson só não teve motivos para cantar sua cidade natal.

Jackson do Pandeiro (acervo: Sandrinho Dupan)

Alagoa Grande, próximo a Campina Grande, foi raridade no seu repertório geográfico e aparece, discretamente, no baião ‘Cantiga do Sapo’.

Já no compacto “Canjica, Pamonha e Rojão” (1977), o paraibano volta a se referir à cidade em uma intervenção, uma das características da sua música falada, ao final de ‘Vem cá, Maria’, onde o cantor se lembra de um sapo em um rio de Alagoa Grande.

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Música elástica

No repertório de Jackson do Pandeiro, morto em julho de 1982, tinha marcha, frevo, xaxado, maxixe, xote, baião e terreiros de candomblé, e deixou sua marca em quase todos os gêneros da música brasileira.

“Até na Bossa Nova ele fez nuances”, lembra o biógrafo Fernando Moura, autor do livro “Jackson do Pandeiro: O rei do ritmo” (ed. 34).

Sua discografia rodou o mundo sem deixar o Nordeste das batidas do coco, da sintaxe do repentista e do batuque africano. Sem cortar o cordão umbilical com o coco tocado pela mãe Flora Mourão, Jackson era roça e metrópole, ao mesmo tempo.

Era o diálogo entre o regional e o exterior.

Estátua de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, em Campina Grande, na Paraíba (foto: Wikimedia Commons)

Luiz Gonzaga tinha um olhar mais para o sertão, Jackson era um cronista da cidade”

- Arthur Pessoa - banda Cabruêra
Alagoa Grande, no Brejo paraibano (foto: Eduardo Vessoni)

Mas a década de 60 mal chegou e tudo parecia fora da ordem: caipira mastigava chiclete, matuto parecia playboy e até coroa andava de mini saia.

O país trocava o violão pela guitarra elétrica e fazia rock, embalado pelas novidades rítmicas do twist dos EUA e dos cabeludos de Liverpool. Jackson garantiria sua parte naquela festa de arromba com ‘Chiclete com Banana’ (1959).

Essa sátira sambada, que lembra o twist de Chubby Checker, faz uma crítica humorada sobre a influência da música estadunidense no Brasil e desafia logo na entrada.

E quando isso tudo acontecesse, daí sim, aquele “nego veio” misturaria “Miami com Copacabana” e “chiclete com banana”.

Chiclete com banana

“Eu só boto bebop no meu samba / Quando Tio Sam tocar um tamborim / Quando ele pegar / No pandeiro e no zabumba / Quando ele aprender / Que o samba não é rumba”

“[Antes dessa música] Jackson já estava colocando bebop no samba, dizendo que a gente pode dialogar com coisas tão distantes, sem perder a localidade”, analisa o músico Arthur Pessoa.

Nos anos seguintes, a guitarra ameaçava a música nacional com aquela “americanada” toda. Em resposta, Jackson grava ‘Twist não’ (1963), uma das faixas mais roqueiras da sua carreira, fazendo eco à surf music dos Beach Boys, Duane Eddy e Dick Dale.

Em 1976, o disco “É sucesso” traz faixas como ‘Iê, iê, iê no Cariri’ e o samba ‘Mãe Maria’.

Para o cantor Lenine, em entrevista para o jornalista Eduardo Vessoni, a polirritmia de Jackson era sedutora, o que lhe garantiria o título de ‘rei da percussão de boca’.

“Jackson pegava qualquer música dos Beatles e cantava no pandeiro dele, fazendo na base um coco”, descreve Lenine.

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1 Comentário

  1. Jackson era compositor, arranjador, intérprete, percussionista e, um musicista de primeira linha, dedilhava um violão com maestria, era um improvisador nato, genial, nunca cantava a mesma música de forma igual, os “avanços e atrasos” eram sempre diferentes. Sou e sempre serei seu fã, obrigado pelo seu trabalho “mago véio” e, fique com Deus sempre.

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