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5 motivos para conhecer Taiwan (e o fio dental é um deles)

Em um daqueles cafés da manhã exagerados de Taiwan, comi algo que persistiu entre meus dentes nas horas seguintes. O dia seria longo, com um pedal de 73 km até o Lago do Sol e da Luna e minha bagagem de mão seguia no carro de apoio aos ciclistas.

Aquela mistura de centros urbanos caóticos e povoados isolados entre altas montanhas era fascinante, mas aquele fiapo do desjejum me tirava a concentração.

Na primeira parada técnica, me afastei do grupo, em uma moita escondida na beira de uma estrada ruidosa de Changhua. Ali mesmo, sem cerimônias, saquei a caneta da mochila e fiz da tampa azulada a minha libertação, enfiando-a, cirurgicamente, entre os dentes do fundo esquerdo da boca.

O resto de café da manhã mal dera sinal de alívio quando um motociclista que vinha pela estrada diminuiu a velocidade, parou do meu lado, abriu a mochila e meu deu um… fio dental.

Eu não sabia, mas aquele gesto resumia o que viria pela frente.

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Fui para a Ilha Formosa, como Taiwan foi chamada pelos portugueses no século 16, com duas missões: fazer um circuito de bicicleta com quase 180 km de extensão na Cordilheira Central e também um roteiro sobre a gastronomia em um dos países mais veganos do planeta.

Visitei templos taoistas imponentes, provei os pratos mais criativos e participei de sessões de chá ao som de mantras budistas, tocados ao vivo.

Mas o que eu não sabia (ainda) é que aquele era também um dos destinos mais simpáticos da Ásia (para não dizer do planeta).

E o mundo sabe disso.

Menor do que o Espírito Santo, esse destino de 36 mil km² recebeu quase sete milhões de visitantes estrangeiros, em 2018, segundo o escritório de estatísticas nacionais de Taiwan.

5 motivos para conhecer Taiwan

1. Reino da bicicleta

Entre a China continental e as Filipinas, a ilha vem fazendo da bicicleta sua melhor forma de locomoção, seja em grandes cidades ou em vilarejos rurais entre montanhas gigantes.

Pedal na área do Lago Sol e Lua, no Condado de Nantou (foto: Eduardo Vessoni)

Sede da Giant, a maior fabricante de bicicletas do mundo, essa ilha bike friendly tem mais de 400 pontos de aluguel de bicicleta, só na capital Taipei.

Foi ali que começou minha viagem por Taiwan, cuja pauta principal era encarar 176 km de pedal pelo interior montanhoso da ilha. No meu caso, cumpri 158 km, devido a um cansaço extremo no primeiro dia, aliado a um jet lag cruel.

Como todo destino asiático de talento tecnológico, Taiwan surpreende também pelo sistema integrado de transporte público (só para ter uma ideia, tem até metrô interligado com gôndolas de teleférico, em Maokong, na capital taiwanesa).

Mas é sobre duas rodas que o país passa mais lento diante dos olhos. SAIBA MAIS

2. Fuma aqui e toma um chá

Mesmo nas refeições mais descompromissadas, ele está sempre ali, fumegante, servido em louças dos mais variados desenhos.

Wang Tea, fábrica de chá de 1890, em Taipei (foto: Eduardo Vessoni)

Se a vizinha China é o maior consumidor e produtor de tabaco, Taiwan socializa com suas sessões de chá. E por ali não basta apenas infusionar ervas em água fervente.

Conhecido como um dos principais produtores de oolong, uma mistura de chás verde e preto, o país tem opções de rituais que vão das clássicas aulas com um sommelier de chá até cenográficas sessões com exercícios de tai chi.

Dumpling de chá verde
(foto: Eduardo Vessoni)

No Six Senses, um restaurante da boêmia rua Linsen North Road, meu almoço terminou em uma sala privativa com a atendente conduzindo uma meditação ao som de tambor tocado ao vivo.

Já o Cha for Tea leva a coisa ao pé da letra e todos os pratos são feitos a base de chá, da massa do noodle de chá verde a tofu mergulhado no… chá.

Curiosamente, os restaurantes taiwaneses costumam disponibilizar água fresca e chá para os clientes, gratuitamente.


3. Para elevar a alma

Com uma das maiores concentrações humanas do planeta, Taiwan se refugia em, aproximadamente, 15 mil templos. Dos 23 milhões de habitantes, cerca de oito milhões são budistas.

Tem templo para observar os sons do tempo (Templo Longshan); reverenciar Mazu, a Deusa do Mar (Templo Ciyou); e relembrar a simplicidade do filósofo chinês Confúcio (Templo de Confúcio).

Templo WuChang (foto: Eduardo Vessoni)

É tanta devoção por espaços sagrados que Taiwan mantém as ruínas de um templo danificado por um dos acidentes naturais mais devastadores da história recente do país, em Jiji, epicentro de um abalo sísmico de 7,6 graus na escala Richter, em 1999.

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4. Para comer com os olhos

Minha segunda pauta na ilha foi a produção de um roteiro sem carnes (ou qualquer outro ingrediente que envolvesse sacrifício animal) que fiz para a revista Vegetarianos (ed. 158).

As melhores experiências estão em Taipei, considerada pelo PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) a cidade mais vegana da Ásia.

Assim como lembram os donos dos estabelecimentos vegetarianos que visitei na capital taiwanesa, mais de 50% dos clientes são carnívoros que buscam uma alimentação saudável (e sem carnes).

Jardim japonês de salada, na Easy House
(foto: Eduardo Vessoni)

Para entender a dinâmica da cozinha taiwanesa, participei de uma aula de culinária (cookinn.tw), que começou com compras de ingredientes em um mercado e terminou com a preparação de sopa de noodles, pão no vapor recheado com lufa e cogumelo (xiao long bao) e o famoso chá de bolhas (bōbà nǎichá).

Além das refeições inusitadas citadas acima no box sobre chás, provei também os pratos cenográficos da Easy House (easyhouse.tw) e a infinidade do cardápio do Flourish (@flourish_vegan), que também conta com uma padaria com ingredientes de origem não-animal.

Mas o melhor é o valor que se paga por tudo isso.

Durante quase uma semana de mesa em mesa, vi desde pratos simples a menos de R$ 10, como uma sopa de missô orgânico, a opções de um restaurante de cozinha sichuan com pratos individuais a partir de R$ 30, indicado pelo guia Michelin.

5. Salve simpatia

Tudo isso seria apenas mais uma viagem pela Ásia, não fosse por um detalhe: sua gente.

Ao longo de quase duas semanas de viagem fui recebido por uma hospitalidade genuína não só no exemplo do fio dental que abre este texto, mas também em hotéis, restaurantes, casas de chá, atrativos turísticos e serviços de profissionais como guias de turismo.

Pedalada em direção à Cordilheira Central de Taiwan (foto: Eduardo Vessoni)

Em um dos momentos mais emocionantes da viagem, durante um pedal íngreme na região serrana de Taiwan, uma desconhecida nos recebeu em sua casa com chá para mais de 13 ciclistas.

“É parte da cultura taiwanesa oferecer chá para quem para na frente da sua casa”, explica Min Hsieh, condutora da Giant Adventure.

SAIBA MAIS
Turismo oficial de Taiwan
www.taiwan.net.tw

*O jornalista Eduardo Vessoni visitou Taiwan, antes da pandemia, a convite do Tourism Bureau, Republic of China (Taiwan)

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