Nota de repúdio ao turismo de Taiwan

Sim, isso parece incoerente da minha parte, sobretudo depois de ter me declarado, publicamente, sobre uma das experiências mais marcantes da vida.

Mas vai ter textão, sim!!!

Acabei de receber uma ligação aqui no Brasil de uma representante do Tourism Bureau, Republic of China (Taiwan), o órgão de promoção do turismo na ilha, criticando o meu vídeo e a minha matéria que publiquei esta semana no meu site pessoal Viagem em Pauta (“5 motivos para conhecer Taiwan (e o fio dental é um deles”).

A conversa com a pessoa que me ligou foi surreal, daquelas que tentam te enfiar goela abaixo problemas geopolíticos que eu, em nenhum momento, me propus a fazer análise, sobretudo porque o foco das minhas matérias é o turismo (ainda que isso sempre passe, inegavelmente, por questões do gênero).

De um vídeo de 13 minutos de duração, o governo taiwanês só foi capaz de comentar 5 pontos, todos negativos.

“Você falou da China no vídeo”

Embora eu não seja historiador, geógrafo, muito menos cientista político, quem conhece meu trabalho sabe que eu, como um ex-eterno professor, sempre faço questão de contextualizar meus trabalhos com informações de geolocalização que oriente o leitor a saber “de onde estou falando”, “onde fica aquele lugar”.

Certamente, muitos brasileiros não têm a menor ideia de onde fica Taiwan, geograficamente.

E o meu erro foi justamente esse: INFORMAR o meu leitor que Taiwan é uma ilha que fica entre a China Continental e as Filipinas.

Mas segundo a funcionária, o governo de Taiwan não gostou disso pois eu fiz referência a China, que não é um país democrático e que eu deveria ter dito que Taiwan fica entre o Japão e as Filipinas!!!!

Em outras palavras, não se deve citar a China numa matéria sobre Taiwan.

Ora, meus caros, a instituição se chama Tourism Bureau, Republic of China (Taiwan), ou seja tem China no próprio nome.

Eu não vou refazer os mapas da Ásia e nem sou um negacionista da História. Muito menos, vou ocultar dos meus leitores que Taiwan fica, SIM, entre a China Continental e as Filipinas.

Ainda dentro desse primeiro feedback, a mesma funcionária me disse que eu deveria dizer que Taiwan é um país, e não uma ilha!!!!!!!

Então quer dizer que chamar um país insular de ilha é diminui-lo diante de outras nações? Um país deixa de ser um país ou perde seu valor histórico, cultural, político e econômico quando é nomeado pela sua condição geológica???

Ou seja, o Reino da Dinamarca‎, Reino Unido, Islândia, Nova Zelândia, Japão, Singapura‎, Filipinas e Indonésia, entre tantas outras nações,‎ não são países? Ou deixam de sê-lo quando nomeados como ilha???

Caros leitores, não se deixem enganar pelas ideologias engendradas em salas do governo. Taiwan é uma ilha, fica entre a China Continental e as Filipinas.

“Você chorou no vídeo”

Se o jornalismo precisa ser imparcial e informativo, minhas emoções acerca de uma viagem turística, não precisam. E é exatamente isso que marca, entre outras características, o diferencial do meu trabalho.

Eu não escrevo guias turísticos burocráticos e frios sobre destinos. Eu viajo para inspirar seres humanos.

Taiwan, seu comentário foi MACHISTA, PRECONCEITUOSO, FRIO e CRUEL.

Se você, asiático, é incapaz de chorar quando supera desafios e conquista “títulos”, como esse que eu jornalista não-atleta conquistei depois de quase 160 km de pedal, eu lamento muito por esse sentimento reprimido aí dentro de você.

Eu vou continuar chorando e me emocionando todas as vezes que for preciso, e não vai ser você, nem nenhum outro governo que vai me impedir de expressar aquilo o que eu sinto.

Eu sou latino, neto de nordestinos e defensor da expressão livre dos sentimentos. E quem me acompanha nos meus vídeos no Youtube sabe que NÃO escondo sentimentos quando o mundo do lado de fora mexe com o meu mundo aqui dentro.

Só me chamou atenção a mesma funcionária dizer, quando a conversa já tinha tomado um rumo inesperado, que eu deveria ter tido que Taiwan é um país LGBT, mesmo sabendo que antes da viagem as minhas pautas acertadas eram “ciclismo em Taiwan” e “gastronomia vegetariana”.

Então quer dizer que se eu dissesse que Taiwan (que aliás é uma ilha e fica entre a China Continental e as Filipinas) é LGBT, eu teria autorização, enquanto HOMEM E GAY, para chorar???

Homem não chora, é isso o que eu entendi??? Chorar é um sentimento menor? Diminui o valor positivo da experiência? Não combina com homens brancos europeus de porte atlético, como os outros colegas jornalistas que estavam no grupo de jornalistas?

“Você não exaltou Taiwan no vídeo”

Essa foi a parte que mais me doeu. Na alma (e bem profundo).

Quem acompanhou essa viagem, que aconteceu em novembro de 2019, sabe o quanto me emocionei, quantas experiências únicas eu descrevi em stories e posts, o quanto eu entrei de cabeça.

Até hoje, foram publicadas 3 matérias minhas sobre essa viagem (que só não foram mais por conta da pandemia).

Exaltei a culinária taiwanesa em matéria publicada em uma revista especializada para vegetarianos; exaltei a beleza dos rituais do chá em Taiwan, em uma matéria publicada em um dos maiores portais de notícias do país.

E mais.

Na minha matéria no meu site publiquei o texto “5 motivos para conhecer Taiwan”, onde escrevo, entre tantas exaltações, sentenças do tipo:

  • “o que eu não sabia (ainda) é que aquele era também um dos destinos mais simpáticos da Ásia (para não dizer do planeta)”;
  • “a ilha vem fazendo da bicicleta sua melhor forma de locomoção”
  • “essa ilha bike friendly tem mais de 400 pontos de aluguel de bicicleta, só na capital Taipei”
  • “Taiwan surpreende também pelo sistema integrado de transporte público”
  • “[Taiwan é lugar] Para elevar a alma”
  • “As melhores experiências estão em Taipei, considerada pelo PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) a cidade mais vegana da Ásia”
  • “Tudo isso seria apenas mais uma viagem pela Ásia, não fosse por um detalhe: sua gente”

E eu não exaltei Taiwan, Tourism Bureau, Republic of China (Taiwan)???

“O seu texto foi muito pessoal”

Em uma ligação em que eu mal tive chance de me explicar ou me defender, a funcionária disse que eu fui pessoal demais na matéria.

Para eles, eu deveria ter feito uma matéria institucional e não pessoal!!!

Em um país democrático, caros taiwaneses, jornalistas convidados a conhecerem um destino turístico, escrevem suas experiências a partir do que vimos, do que provamos, do que sentimos.

Textos institucionais, deixamos para os órgãos burocráticos, para as instituições, para o governo. Fui convidado como jornalista de turismo para escrever minha opinião sobre Taiwan, e não sobre aquilo o que vocês queriam que eu escrevesse.

É assim que funciona, pelo menos nos países democráticos. Um comentário desse nível demonstra uma falsa simpatia e um apego por uma democracia que só convém a outro.

“Você comparou a experiência de pedalar nas ruas de Taiwan a 25 de Março”

Essa rua comercial tradicional de São Paulo é feita de histórias escritas por imigrantes, sobretudo asiáticos e árabes, que deixaram seus países para fazer negócios (de sucesso) por aqui.

Por isso, comparar um pedal numa cidade de trânsito intenso de Taiwan com a 25 de Março não é diminui-lo, é simplesmente acionar no brasileiro uma imagem conhecida para descrever a experiência.

Como está registrado no próprio vídeo que publiquei, arrisquei minha vida pedalando durante 5 dias por vias que não contavam com NENHUMA ciclovia adequada e segura para ciclistas.

Pedalei, perigosamente no meio-fio, em estradas de alta velocidade, entre caminhões, carros, motos e ônibus.

E o problema é a rua 25 de Março, Taiwan???

Por favor, um feedback

Eu, sinceramente, amigos e seguidores, gostaria muito da ouvir a opinião de vocês, assistindo ao vídeo no youtube e lendo o texto no site.

Feedbacks para mim, sejam eles construtivos ou desmiolados como esses todos aí encima, são o que me move na direção dos meus aprimoramentos pessoal e profissional.

TAIWAN, você conseguiu arruinar todos os bons sentimentos que você mesmo me proporcionou durante essa viagem.

Eu estou dilacerado.

* Eduardo Vessoni – 26/11/2020

4 Comentários

  1. Cacete! Essa mulher tá achando que comprou informe publicitário na Veja? Pelo amor da deusa tô indignada com a incompetência desse ser humano. Parou em 1890 ela?

    Eu to chocada com os argumentos esdrúxulos dela. Não quer ser associada a China, mas agiu de forma mais ditatorial possível.

  2. Indignada! Passei dias conhecendo o menu da Ilha, admirando a culinária… curiosa pelo lugar, pra essa palhaçada de comentário da Tourism Bureau.

  3. Fui ver o seu vídeo ; estava fantástico ! Colocou Taiwan na minha rota de turismo … As reclamações do bureau devturismo não procedem . Parabéns, ficou ótimo mesmo

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