As viagens de Tamara Klink, a menina que cresceu e partiu

Para Tamara Klink, os sonhos são perigosos. Basta tê-los, dando voltas na cabeça, para não conseguir mais deixar de tê-los.

E assim, entre rotas imaginárias e histórias do mar contadas ao pé da cama, na infância, Tamara fez do mar seu mundo, comandando não só seu barco mas a si mesma.


O recém lançado “Crescer e Partir” (editora Peirópolis) é um box com dois livros: “Mil Milhas”, que reúne diário de bordo de suas viagens, e “Um mundo em poucas linhas”, onde também mostra sua habilidade para navegar pelo mundo da prosa poética.

No primeiro, o leitor acompanha os meses de preparação de sua navegação no Mar do Norte. No segundo, as estrofes breves dão conta das saudades, dos desejos e das descobertas.

“É preciso se sentir em casa para poder sair de casa”, analisa na primeira parte de “Mil Milhas”. Mais do que chegar, Tamara acredita que é preciso “desembrulhar os planos” para conseguir sair.

foto: Divulgação

Ela bem que poderia ter escolhido um emprego, daqueles explicáveis “em uma palavra só”, algo que pudesse ser feito de 2ª a 6ª, em horário comercial. Mas preferiu navegar em solitário , singrando fiordes, pegando tempestades e navegando sob noites que chegam mais cedo no norte do planeta.

Filha de um pai que, sem afagar-lhe a cabeça com as mãos protetoras dos progenitores, ensinou que “se você quer fazer algo, faça”. “Mas só deixe para contar quando tudo estiver pronto”.

E foi o que ela fez.

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No recém lançado “Mil milhas”, Tamara conta as histórias de sua primeira viagem em solitário, entre a Noruega e a França, no pequeno veleiro ‘Sardinha’ que comprou, aos 24 anos, sem que a família soubesse ou tivesse tempo de dissuadi-la da ideia.

Enquanto o cais ia ficando pequeno, afastando-se, Tamara se aproximava do mar que crescia sob seus pés.


Mas não sem deixar de contar os perrengues, como encarar uma “autoestrada de navios” em direção à Dinamarca, navegar o lamaçal da Antuérpia. Sem falar nas tempestades, nos ventos que cantam, nas noites mal dormidas, nas saudades, nos nós e nos medos.

Registrando a rotina marinheira em seu diário, Tamara acaba escrevendo um livro de autoajuda para si mesma.

foto: Divulgação

“Seria mais fácil não dar ouvidos ao chamado. Seria mais confortável esquecer que era possível. Quantas grandes chances nós deixamos passar por apostar no fracasso?”

Os escritos de Tamara são sobre desancorar raízes para fazer os próprios caminhos, ainda que por vias escuras do mar. Sozinha, cheia de dúvidas e medos.

“Mil milhas” é um livro sobre erros, acertos. E mais erros. É sobre despedidas dos amores deixados nos pontões dos portos e das promessas eternas de amores.


Tamara, que estudou arquitetura naval na França, escreve sobre viajar sozinha com o mar como única companhia, assim como seus escritos. E, quando o faz, se transforma em outras. É velejadora, mecânica, eletricista, skipper e escritora das próprias loucuras.

“Me acostumo à ideia de acreditar em mim”, confessa Tamara, quem acredita que navegar em solitário é um exercício de autoconfiança. Por isso, ouve a própria voz, erra sem vergonha e , quando é preciso, atravessa a rua para não ter que se encontrar consigo mesma.

TAMARA KLINK
foto: Divulgação

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“Um mundo em poucas linhas”

Já o segundo título do box traz poemas e textos em prosa poética sobre as diversas viagens que Tamara fez desde criança com a família, da Namíbia a França, de Paraty ao Pantanal.

Tamara vai então costurando poemas com temas que vão das navegações aos namoros, das travessias ao crescimento, das dores da separação à arquitetura das solidões.

foto: Divulgação

O exercício de registrar travessias começou aos 8 anos, a caminho da Antártica, com a sugestão de Marina Bandeira.

– “Toma este caderno em branco e escreve sobre o dia”, desafiou a mãe, com quem aprendeu a registrar as viagens em diários para evitar o desgaste do tempo. “Tudo o que vivemos desbota, se dilui ou evapora”, diria a matriarca.

Daquela experiência surgiu o simpático “Férias na Antártica”, diário de bordo das filhas do velejador Amyr Klink, em sua primeira expedição ao Continente Branco, publicado em 2011 com suas irmãs, Laura e Marina.

Naquela espécie de álbum de viagens, o trio Klink conta sobre preparação de uma mala para um destino de condições tão extremas e relatos sobre o encontro com animais antárticos, como focas, pinguins e baleias.

“Para um pai viajante, calejado de surpresas, [o livro] foi uma grande surpresa. A maior que já tive”, descreve Amyr no prefácio.

imagem: Divulgação

Assim como atravessar a Passagem de Drake, Tamara aprendeu que, para ver o sublime das coisas belas, é preciso provar a dor.

“Uma mulher precisa viajar. Para descobrir por si mesma aonde é capaz de chegar”. E mesmo de volta, conclui que “daqui não tem mais volta”. Meninas crescem. E partem.

E quando acabar, a gente vai fazer o que? Começar tudo outra vez.

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SAIBA MAIS

Crescer e Partir” (2 volumes)
Tamara Klink

R$ 88

Editora Peirópolis

2 Comentários

  1. Parabéns,por buscar outras formas de vida. Parabéns, por mostrar ao mundo que mulheres podem ser livres. E finalmente, parabéns pela coragem de sonhar e realizar…

  2. Sempre admirei seu pai,acompanhando sua trajetória pelos mares deste mundão de Deus. Tenho todos os livros publicados.Agora,que mpassei a ser tbm sua fã,vou acompanhar cada projeto seu e,com certeza,comprar cada livro publicado. Obrigada,família Klink simplesmente por existir!!!

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