‘Holocausto Brasileiro’ chega à Netflix, neste domingo

“É muito estranho você imaginar um hospital que já tinha acoplado a ele um cemitério”.

Essa frase dita por um dos entrevistados no trailer divulgado, recentemente, dá o tom de ‘Holocausto Brasileiro’, documentário da HBO que estreia na Netflix, no próximo domingo, 25 de fevereiro.

Dirigido por Armando Mendz e Daniela Arbex, que também assina o roteiro, o longa conta as histórias estarrecedoras do Colônia, hospital psiquiátrico fundado no início do século passado, em Barbacena, em Minas Gerais.

foto: HBO MAX/Divulgação

Por anos, o local recebia o “Trem de Doido”, nome pejorativo dado aos vagões lotados de supostos pacientes, dos quais 70% não tinham qualquer diagnóstico de doença mental, segundo a própria produção do documentário.

Em vez de internos com problemas, de fato, psiquiátricos, o hospital era um depósito de pessoas que a sociedade queria distância, como pobres, homossexuais, prostitutas, alcoólatras, epiléticos, meninas grávidas e até crianças indesejadas pela família.

Naquela viagem sem volta, os internos eram submetidos a eletrochoques e exposição ao frio e à fome. Até a década de 1980, cerca de 60 mil pessoas morreram no local.


Holocausto brasileiro

Fundado em 1903, como o primeiro hospital psiquiátrico público de Minas Gerais, o local ainda está em funcionamento, mas com práticas mais humanizadas e de desospitalização, como o projeto “Casa Lar”, de 2016, uma residência transitória para moradores conviverem em um espaço mais próximo de um lar.

No entanto, o recorte histórico do filme de Mendz e Arbex é a época em que o Colônia funcionou como “um verdadeiro campo de extermínio”, onde poucos sobreviviam, acompanhado de depoimentos e entrevistas.

foto: HBO MAX/Divulgação

O documentário é baseado no livro “Holocausto Brasileiro” (ed. Intrínseca), de Daniela Arbex, que assina o prefácio de outra obra da literatura a tratar do assunto.

Do outro lado do continente, em Nova York (EUA), a antiga ilha Blackwell abrigou o ‘Asilo de Mulheres Lunáticas’, o primeiro manicômio das Américas. Assim como no hospital mineiro, a instituição internava mulheres pobres ou estrangeiras que mal podiam se comunicar em inglês, daí o equivocado diagnóstico de confusão mental.

A “paciente” mais famosa da instituição foi Nellie Bly, pioneira do jornalismo investigativo que, em 1887, simulou loucura para registrar de perto as atrocidades no local, registradas no excelente ‘10 Dias no Manicômio’ (editora Ímã).

Divulgação

“A repórter conseguiu lançar luz sobre a invisibilidade imposta aos loucos e às próprias mulheres”, descreve Arbex no prefácio.

No livro, Bly faz uma descrição nua com “palavras simples e sem exagero” sobre mulheres tomadas por uma loucura que, a conta-gotas, era plantada naquelas mentes sãs.

Mais do que um testemunho pessoal, conta Arbex, o livro da estadunidense “expõe uma lógica manicomial cruel que segue fazendo milhões de vítimas ao redor do mundo”.

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  • nellie Bly_Library of Congress

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