Terra de vulcões, Lanzarote é a versão surreal da Espanha


No dia 1º de setembro de 1730, entre 9 e 10 da noite, a terra se entreabriu de repente, sob os pés da população de Lanzarote, dando origem a uma montanha que emergiu do chão, cujo topo cuspia chamas ardentes.

Nos seis anos seguintes, entre 1730 e 1736, uma área de 200 km² foi atingida, ininterruptamente, por erupções que deram origem a mais de 30 cones vulcânicos, destruindo 26 povoados.

Lanzarote nunca mais seria a mesma. Atualmente, aonde quer que se vá, vulcões de diferentes formatos e um mar de lavas são os cenários mais famosos.

Parque Nacional de Timanfaya, em Lanzarote (foto: Eduardo Vessoni)

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Lanzarote

As Ilhas Canárias são um arquipélago espanhol formado por oito ilhas, como Lanzarote, a mil quilômetros da Península Ibérica e a apenas 140 quilômetros da costa da África.

É nesse pedaço de terra mais oriental e mais antigo das Canárias que estão localizados mais de 100 vulcões, alguns deles, cenário de atrativos turísticos, como o parque nacional dedicado ao vulcanismo e o bar-restaurante dentro de um corredor de lava vulcânica.

Para ter uma ideia do poder de fogo das atividades vulcânicas, há 180 milhões de anos, sua primeira parada é no Parque Nacional de Timanfaya, endereço da ‘Rota dos Vulcões’, um circuito de 14 quilômetros que passa por 25 crateras vulcânicas, visitadas de ônibus.


O visual lunar de tons negros, avermelhados e acobreados é um dos mais relevantes processos eruptivos da Terra e leva o visitante a conhecer o mesmo cenário daqueles ininterruptos seis anos de trabalho vulcânico do século 18, experiência que só foi possível pelo fato de Timanfaya ter chegado intacto aos dias atuais.

Naquele mar de lavas basálticas sob os pés, conhecido também como ‘Montañas de Fuego’, tente o restaurante panorâmico El Diablo, cujo cardápio é preparado em um forno sobre rocha que aproveita o calor do próprio vulcão.

Ao norte, a ilha leva o viajante para dentro da Terra, no sentido mais literal da expressão.

Cueva de los Verdes (foto: Eduardo Vessoni)

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A Cueva de Los Verdes é uma sequência de túneis de lavas vulcânicas, uma das mais extensas do planeta, formada pelo vulcão La Corona. Com mais de seis quilômetros que seguem até o mar, o local é formado por 16 diferentes entradas a grutas que dão acesso a salões vulcânicos de até 50 metros de altura.

A visita a essas galerias sobrepostas, cujo lagos interiores costumam causar efeitos óticos no visitante (em certos momentos a gente não sabe o que é teto e o que é o fundo de um suposto penhasco), é complementada pelo projeto de iluminação e música incidental que vão se modificando de acordo com o ambiente.

A ação furiosa do La Corona, há 21 mil anos, deu origem também aos Jameos del Agua, onde funciona um bar, um restaurante e um palco sobre um lago natural interior com espécies endêmicas como o caranguejo cego. Tudo isso dentro de um corredor vulcânico sob o mar, entre uma vegetação insistente que dá outros tons àquele cenário inóspito.

Jameos del Agua (foto: Eduardo Vessoni)

Ilha graciosa

O endereço mais famoso de Lanzarote é a Isla Graciosa, cujo nome dispensa tradução ou explicação.

Essa ilha de 29 km² é conhecida por suas ruas sem asfalto, um dos poucos lugares da Europa que ainda não contam com vias do gênero, e praias de areias finas e águas que mudam de tonalidade, ao longo do dia.

É ali, inclusive, que fica a Reserva Marina del Archipiélago Chinijo, uma área protegida de 70 mil hectares, considerada a maior reserva marinha de Europa.

Playa de la Cocina, aos pés do vulcão Montaña Amarilla (foto: Eduardo Vessoni)

Os barcos que saem do povoado de Órzola, no norte de Lanzarote, chegam lotados de turistas que vão se espalhando pelo centrinho da Caleta de Sebo, a principal entrada para La Graciosa.

Mas é só começar a se afastar, em direção ao sul da ilha, para aquele cenário de casinhas brancas, entrecortado por ruas de areia, dar lugar a uma sequência de baías e praias de águas calmas, protegidas por muralhas de pedra natural.

Ou vai dizer que você já tinha imaginado nadar em uma praia aos pés de um vulcão? Nos passeios de barco, a Playa de la Cocina é uma das paradas, uma faixa de areia na base do vulcão Montaña Amarilla.

E no final da viagem, títulos como ‘Ilhas Abençoadas’ e ‘Ilha Diferente’ vão fazendo sentido.


Ilha das artes
O escritor português José Saramago e o artista César Manrique são os protagonistas dos espaços culturais mais famosos da ilha.

O Prêmio Nobel da Literatura de 1998 é o tema da Casa José Saramago (acasajosesaramago.com), espaço de exposições na mesma construção onde Saramago e a esposa Pilar del Río passaram os últimos 18 anos da vida do escritor.

Casa José Saramago (foto: Eduardo Vessoni)

A visita guiada leva a ambientes originais da casa como o escritório em que Saramago escreveu as primeiras linhas da obra ‘Ensaio sobre a Cegueira’, bem como sua sala de descanso com trabalhos artísticos feitos por artistas como Niemeyer e Carybé, e o quarto onde Saramago “cerrou os olhos e deixou que a vida o fosse deixando”, no dia 18 de junho de 2010.

Um dos destaques é a biblioteca com 16 mil livros, divididos por temática, país e autor, inclusive com dedicatórias de escritores como Eduardo Galeano e Gabriel García Márquez.

Outro espaço de artes, em Lanzarote, é a Casa-Museo César Manrique (fcmanrique.org), no norte da ilha. O museu, que fica na residência original do artista, foi construída no interior de corredores vulcânicos e tem acervo com quadros, esculturas, desenhos, móveis e cerâmicas.

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