Cecília Meireles, a anti-turista que fez poesia com suas viagens


Para a escritora Cecília Meireles, Roma é uma sobreposição de séculos que faz o viajante se sentir perdido em pedaços de história. Já o turista, apressado, não tem tempo para se impressionar.

Enquanto esse vê a Fontana di Trevi como um depósito de moedas; para o outro, é um festival de deuses em águas sussurrantes.

Em memória aos 60 anos da morte de Cecília Meireles, o Viagem em Pauta viajou no Crônicas de Viagem (Global Editora), um box de três livros com textos em prosa sobre a estrada, escritos entre 1941 e até bem pouco antes de sua morte, em novembro de 1964.

A partir de textos dos arquivos da família da poeta, alguns deles sem indicação de data ou dispersos em jornais e revistas, “revela-se toda a rica experiência humana de Cecília Meireles em seu contato reflexivo com as pessoas e com o mundo”, descreve o organizador da obra, Leodegário A. de Azevedo Filho.

Sem saber se aquilo tudo é jornalismo, diário de bordo ou poesia, com Cecília, o leitor apenas viaja.

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O mapa-múndi era sua lousa

Sobre viagens, Cecília Meireles escreveu de tudo. Do chefe espiritual do Harlem à monotonia das rotinas previsíveis de um hotel; das revistas demoradas nas alfândegas às janelas abertas pela primeira vez.

Brasil, Uruguai, Peru e Porto Rico. Estados Unidos, México, Europa, Israel e Índia.

Em quase 200 textos curtos reunidos na obra, Cecília fez poesia com tudo que viu. Só lamentou a brevidade da vida e a falta de tempo para se apaixonar por uma cidade.

“O caminho já vai sendo saudade”, escreveu quando passou por Sorrento, na Itália.

Mas suas crônicas não são sobre informações enciclopédicas tiradas de guias turísticos nem relatos egoicos sobre si mesma. Seus textos são um olhar sobre aquilo que o turista apressado não tem tempo de ver.

A poeta não se contenta em assistir, passiva, ao que lhe é apresentado. Cecília é o próprio mundo e, para ela, viajar não é apenas se entreter, é (in)formar seres humanos.


Por isso, seus textos de viagem não são para a massa que enche sacolas com lembranças inúteis que serão esquecidas, nas férias seguintes. Como educadora, Cecília pega o leitor pela mão e, sem didatismo, o leva a contemplar o mundo do outro.

Sobre a relação do Brasil com os vizinhos, por exemplo, escreveu não só sobre cafés e fronteiras, no Uruguai, mas também sobre as semelhanças entre os idiomas e as palavras iguais de significados diferentes.

“Mas falta alguma coisa para unir-nos mais”, lamentou, em relação ao distanciamento com o restante da América Latina. O texto, que este ano completa 80 anos, parece tão atual como se tivesse sido escrito no Brasil colonial.

foto: Acervo Pessoal de Cecília Meireles

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Em uma das tantas crônicas apaixonadas sobre a Índia, Cecília observou também os passarinhos que pousavam, confiantes, entre os talheres do restaurante de um hotel.

“A lição de não violência, de Siddharta, é uma lição viva, nestes lugares que vimos palmilhando”, registrou no texto Grutas de Ajantá, de 1959.

Sobre viagens poéticas, Cecília escreveria ainda Viagem (Global Editora), livro de poemas premiado pela Academia Brasileira de Letras, em 1938. Entre 1941 e 1942, editou também a revistaTravel in Brazil, cuja breve vida de oito volumes foi um projeto do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) da ditadura de Getúlio Vargas, com colaborações de textos assinados por nomes como Mário de Andrade e Manuel Bandeira.

E depois de tudo que viu, a poeta teve pena de apagar as luzes para dormir. “Que a noite seja breve”, desejou, esperando ver aquilo tudo de novo.

Nem alegre nem triste, ela foi poeta. E viajante.

Em um ensaio sobre a escritora, o professor Alfredo Bosi garantiu que valia a pena viajar com Cecília. E, três volumes depois, em Crônicas de Viagem, o leitor não tem dúvidas disso.

Turista ou viajante?

Se, hoje em dia, soa clichê querer diferenciar os conceitos de turista e viajante, com Cecília, a discussão tem ar de lirismo. Enquanto o turista gasta sola de sapato, o viajante se demora em dicionários, histórias e poesias.

Para a escritora, apesar de menos feliz do que os turistas, os viajantes são aqueles que, vagarosos, querem morar em cada coisa que visita, por isso, se demoram mais nos lugares visitados.

Um se contenta com as fotografias tiradas, o outro tenta entender o que foi sonho e o que foi verdade.

“Como o leitor verá, deliciando-se com as páginas maravilhosas deste livro, que nada tem de propriamente turístico ou vulgar, mas apenas de eterno”, descreve no prefácio o pesquisador Leodegário A. de Azevedo Filho.


“Quanto mais viajo, mais me torno anti-turística.”


Cecília Meireles sobre as “ondas e ondas de forasteiros que atravessam [a Itália] de ponta a ponta”


Viajando nas viagens de Cecília Meireles

Portugal
Em um dos textos mais poéticos da coletânea, Cecília Meireles se declara a Lisboa, “lugar de saudade”, onde “tudo nasceu da água”.

Em 1934, esteve em Portugal com o artista plástico e então marido, Fernando Correira Dias, para uma série de conferências em universidades de Coimbra e da capital portuguesa.

“Dorme, afinal, Lisboa seu sono de caramujo enrolado em lembranças.”

Buenos Aires
Para se prevenir dos estereótipos geográficos, a escritora evoca até Buda para descrever sua primeira viagem à capital argentina: “Não creias em nada por ouvir dizer”.

Assim, prevenida contra “as ideias preconcebidas”, foi preparada para ver mais do que uma cidade antipática, de bifes altos e guloseimas calóricas.

Só achou uma desgraça chegar a Buenos Aires, num domingo, quando todas as livrarias estavam fechadas. Mas ainda tinha os teatros, as óperas e o… circo.

“Deus meu! fazei com que anoiteça depressa, e dividi o meu corpo em pedaços, e reparti-os, cada um com uma entrada para estes vários espetáculos”, desejou Cecília.

“Todos pensam que o Rio de Janeiro é em Buenos Aires (que fazeis, ó cartógrafos nacionais?)”


(Cecília Meireles – ‘Crônicas de Viagem’)

Itália
Lá pelas bandas do Vesúvio, Cecília viu grupos de turistas barulhentos que, pouco dispostos a ouvir o que os guias tinham para contar, estavam mais preocupados em encher sacolas com souvenirs ou se lamentar por aquilo que não tiveram tempo de comprar.

Em Florença, achou que as histórias nunca chegavam ao fim; em Veneza, explorou a “cidade líquida”, a bordo de cisnes negros, como a viajante chamava as gôndolas, andou de ponte em ponte e se encantou com as rendas venezianas.

E quanto mais viajava, mais se sentia anti-turista.

foto: Acervo Pessoal de Cecília Meireles

Índia
Esse país da Ásia foi um dos quais a viajante brasileira mais escreveu, em suas crônicas viageiras.

“Que país encantador! E que gente maravilhosa.”

(Cecília Meireles – ‘Crônicas de Viagem’)

Em um seminário sobre Gandhi, em Nova Deli, a convite do primeiro-ministro Nehru, a poeta não só ouviu debates comoventes sobre as ideias de paz propostas pelo líder, mas também voltou na própria infância com os aromas e texturas servidos à mesa de um almoço no jardim: peixe, galinha, manga verde, tamarindo e coco.

Cecília colocou batuque, samba e macumba nas suas anotações de viagens (brasileiras ou no mundo lá fora). Nessa reviagem ao próprio país, viu até Brasil onde era Índia.

Viu rapaz comer coco verde como se come no norte, balangandãs como os da Bahia e bonecas de barro como as do Araguaia. Viu também a Índia das cores, dos templos, dos cardamomos, das texturas e das crianças, “que me parecem as únicas realmente infantis do mundo”.

E, ao final, tudo eram deuses, “seculares, milenares, eternos”.

Foi desse país que Cecília trouxe inspirações para seu Poemas Escritos na Índia e o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade de Delhi, dado pelo presidente indiano.

SAIBA MAIS

Coletânea “Cecília Meireles – Crônicas de viagem”
editora GLOBAL

1ª edição

R$ 259 (box com três volumes)

grupoeditorialglobal.com.br


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