[crônica] As viagens só acontecem uma vez

A

briu os olhos com confusão e não viu mais do que um teto branco, preenchido por luz, igualmente, clara.

As paredes laterais eram brancas também e completavam o pouco que se via desde que abrira os olhos.

Não se lembrava de nada, apenas acordara em um corpo estranho que não lhe deixava pensar onde estava.

Os olhos não se acostumavam abertos, as pernas eram toras inertes e os braços ainda dormidos terminavam em dedos com pontas formigadas que não obedeciam aos comandos.

Tentou lembrar algo, mas não sabia o que.

foto: Kylie Jaxxon/Flickr-Creative Commons

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Voltou a fechar os olhos, esperando que, ao tornar a abri-los, um frame sequer lhe revelasse uma lembrança. Abria e fechava os olhos (uma, duas vezes), mas nada do que via lhe contava histórias.

Não havia som, nem cheiro, nem ao menos um vento que trouxesse notícias. Tudo era desconhecido.

Às 7h25, em um lugar que sequer lhe contava porquê, conseguiu se sentar na cama. Tentou o interruptor, iluminando um aparador de couro que sustentava uma mala aberta.

Levantou o tampo superior até que se revelassem roupas curtas de verão e outras mais longas para dias de frio, além de calçados, cabos e carregadores. Não eram nem 7h30 da manhã.

Fechou a mala e, quando completou o percurso do zíper, lembrou que toda vez que o fazia, começava uma história nova.

E a próxima teria início, pontualmente, às 7h30, em mais um quarto de hotel.

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