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“Viagem ao redor do meu quarto”: o Big Brother do século 18

“Proibiram-me de percorrer uma cidade, um ponto; mas deixaram-me o universo”

(Xavier de Maistre)
A frase não causaria estranheza se fosse dita por qualquer humano que tenha sobrevivido a 2020, o ano em que fomos obrigados a viajar para dentro. Soa quase como uma síntese dessa temporada forçada que nos levou a visitar, com maior frequência, os cômodos de casa, abrir outras janelas e se contentar com o que se via dali.

Escrita em 1794 pelo militar francês Xavier de Maistre, a frase é um extrato do livro “Viagem ao redor do meu quarto” (Editora 34), uma autobiografia feita durante os 42 dias em que esteve confinado em seu próprio quarto em uma fortaleza de Turim, após um duelo.

O que poderia ser um lamentoso relato sobre a sua punição, em pleno século 18, se tornaria inspiração para pandêmicos, mais de 220 anos depois.

LEIA TRECHOS DO LIVRO

“Não há quem possa, depois de ler este livro, recusar sua aprovação à nova maneira de viajar que introduzo no mundo”.

(XAVIER DE MAISTRE)

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Em 42 dias de pena, descritos em 42 capítulos breves no livro, faltou-lhe espaço físico, mas sobrou imaginação para ir “seja lá aonde ela nos queira levar”.

Até Nietzsche e Machado de Assis teriam embarcado na proposta da viagem do francês (o escritor carioca, inclusive, confessou certa vez que bebeu no texto do confinado para escrever “Memórias Póstumas de Brás Cubas”).

O livro é tão atual (e necessário) para tempos como este que nem seus editores brasileiros escaparam do distanciamento social que, definitivamente, marcou o início deste século. A tradução de Veresa Moraes se deu na França, a preparação dos originais no Canadá e o resto do processo, no Brasil.

“Terá valido a pena – mas, enfim, uma vez basta”, descrevem ao final da viagem de Xavier.

imagem: Pikrepo/Creative Commons

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Viagem ao redor do meu quarto

Do seu quarto de dimensões reduzidas (“um retângulo com 36 passos”), o viajante sedentário se exercita em uma viagem por quadros, cadeiras, mesas, escrivaninha, cama e um espelho, “o único a sempre lhes dizer a verdade”.

Xavier de Maistre percorre as tumbas do filósofo Empédocles, mas também debocha dos relatos de viagens; filosofa sobre os efeitos das cores nos humanos, mas lembra o egoísmo daqueles que estão ocupados, olhando para si mesmos.

No ano em que o moletom e os chinelos viraram peças obrigatórias em malas imaginárias, De Maistre ensina também sobre a influência das roupas “sobre o espírito dos homens” e sua capacidade de (re)forçar patentes ou hierarquias.

“(…) há enfermos que se sentem bem melhor quando se veem em traje novo e peruca empoada; assim fazendo, enganam ao público e a si mesmos com uma aparência rija”.

imagem: pxfuel/Creative Commons

Tudo ali soa tão 2020, o ano das lives e do #tbt que nos fizeram esquecer de ver o mundo ao redor.

“Viagem ao redor do meu quarto” é um exercício mental que sanitiza almas irriquietas e atenua os efeitos de um isolamento forçado, em pleno final do século 18. Mas bem que serviria para o pandêmico ano que durou mais do que 42 dias.

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SAIBA MAIS
“Viagem ao redor do meu quarto”
de Xavier de Maistre

1ª edição (2020)
preço sugerido: R$ 44


www.editora34.com.br

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