Expedição sai em busca do naufrágio ‘Endurance’ de Ernest Shackleton

Quando o comandante Ernest Shackleton ordenou o abandono total do vapor Endurance, as condições eram desesperadoras.

A temperatura do lado de fora era de -18 °C, a água do Mar de Weddell invadia o porão, bancos de gelo faziam assustadoras pressões sobre a embarcação que agonizava a bombordo e a madeira do lado de dentro rangia.


“Está acabado, rapazes. Acho que está na hora de desembarcar”, sentenciou o chefe da expedição, a apenas 160 km da Antártica, vendo a morte lenta do barco de pinho e carvalho levar suas ambições e desejos de atravessar o Continente Branco a pé.

Para Shackleton, a cena era um “doloroso espetáculo de caos e destruição”.

Endurance na Antártica (Domínio Público)

CONHEÇA A HISTÓRIA: “O resgate na Antártica que demorou dois anos”

No congelante 27 de outubro de 1915, Shackleton ordenava o abandono total da embarcação agonizante. O afundamento total do Endurance, depois do chão se dobrar para cima e saltar no ar, aconteceria no dia 21 de novembro daquele mesmo ano.

O fim da última grande viagem da Era dos Descobrimentos dava início a uma das histórias de sobrevivência mais fantásticas do século XX.

Ernest_Henry_Shackleton
foto: Domínio Público

Endurance 2022

Considerada o mais ambicioso projeto de transmissão de dados no Mar de Weddell, a expedição Endurance22 pretende encontrar o mais famoso naufrágio de localização desconhecida da História.

A empreitada, organizada e financiada pela Falklands Maritime Heritage Trust (FMHT), tem início programado para o próximo dia 5 de fevereiro e sairá da Cidade do Cabo, na África do Sul.

Coincidência ou não, a viagem começará exatos 30 dias após o centenário de morte de Shackleton.

foto: Endurance22/Reprodução

A missão de 35 dias será a bordo do quebra-gelo SA Agulhas II, um potente navio polar de 134 metros, construído na Finlândia e capaz de forçar a passagem em blocos de gelo de até um metro de espessura.

Mais do que encontrar a posição exata do naufrágio, a expedição científica pretende também pesquisar e filmar os destroços do Endurance, além de realizar uma série de estudos sobre mudanças climáticas.

A equipe multidisciplinar de 50 pessoas será formada, entre tantos profissionais envolvidos, por cientistas polares, engenheiros, arqueólogos marinhos e cineastas especializados em ambientes extremos. Entre os nomes de peso estarão Richard Garriott, presidente do seletíssimo The Explorers Club.

Sabertooth (foto: SAAB/Divulgação)

Para garantir o desafio da busca, serão usados Veículos Submarinos Autônomos (AUVs) construídos na Suécia, exclusivamente, para a missão de 2022.

Chamados de Sabertooths, esses robôs aquáticos estão equipados com câmeras de alta definição e sonar de varredura lateral, capazes de enviar à superfície informações captadas a até 4 mil metros de profundidade, em tempo real.

Na impossibilidade de aproximação do naufrágio, buracos serão feitos no gelo para introdução dos AUVs.

De acordo com o FMHT, acredita-se que os destroços do navio estão a três mil metros de profundidade, no Mar de Weddell, cuja expedição anterior teve que abandonar a missão, em 2019, por conta das condições extremas.

Porém, a exploração do Endurance não contará com nenhuma penetração dos robôs submarinos nem terá amostras retiradas do fundo do mar.

VEJA FOTOS DA ANTÁRTICA

E o que aconteceu depois do naufrágio?

Nas palavras do biógrafo Alfred Lansing, a perda do Endurance era o último laço dos tripulantes com a civilização.

E o que já estava ruim, ficou pior ainda.

Shackletone seus 27 homens caminharam com gelo até os joelhos, a expedição ficaria dois meses sobre um banco de gelo e os 69 cachorros que acompanhavam a viagem seriam sacrificados.


Pinguins e focas serviram de alimento, e pedaços de madeira e tampas de latas eram pratos e copos.

O primeiro pedaço de terra firme só seria avistado cinco meses depois que a tripulação deixou o Endurance. E sequer tinham chegado à vizinha Ilha Paulet, a desesperadores 556 km de distância do naufrágio.

CONFIRA FOTOS DA EXPEDIÇÃO

  • Library of Congress

SAIBA MAIS: “As incríveis imagens de Frank Hurley na Antártica”

Para sobreviver em um dos lugares mais inóspitos do planeta, nos meses seguintes, aqueles homens acamparam sobre instáveis placas de gelo, encararam longas trilhas a pé e fizeram arriscadas travessias em botes salva-vidas.

No arquipélago das ilhas Shetland do Sul, no oceano Antártico, a Ilha Elefante era a esperança seguinte, a 160 km dali e a sete dias de remadas.

Em abril de 1916, quando os sobreviventes se separaram pela primeira vez, seis homens saíram no James Caird, um bote de sete metros de comprimento que seguiria para pedir socorro na Geórgia do Sul.

No livro de Caroline Alexander (ed. Cia das Letras), a famosa imagem alterada em que Frank Hurley teria raspado com violência (State Library of New South Wales/Domínio Público)

Em 10 de maio de 1916, Shackleton e cinco homens finalizavam uma das mais perigosas viagens marítimas da história.

Os 22 tripulantes que ficaram na Ilha Elefante só seriam resgatados dez semanas depois.

E, se até hoje a localização exata do Endurance é um mistério, ao menos, Sir Ernest Shackleton segue sendo lembrado como um dos maiores líderes da História, trazendo de volta (e com vida) os 27 homens que um dia sonharam cruzar a Antártica a pé.


PARA LER

“A incrível viagem de Shackleton”
(Alfred Lansing)
Editora Sextante

“Endurance: a lendária expedição de Shackleton à Antártida”
(Caroline Alexander)
Companhia das Letras

“Sur”
(Sir Ernest Shackleton)
Editorial Südpol

SAIBA MAIS: “O resgate na Antártica que demorou dois anos”

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.


*